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A IA é real, a bolha da NVIDIA não: O dragão já despertou

2025-12-18 · Por Esteban Rey (@Kilowatto) · 3.626 leituras

Ninguém duvida de que a Inteligência Artificial é a mudança tecnológica mais radical desde o nascimento da Internet. É uma onda real, poderosa e transformadora. Mas há uma diferença abismal entre uma revolução tecnológica e uma valorização bursátil racional. Hoje, ao ver as capitalizações de mercado de empresas como a NVIDIA, não posso deixar de sentir um déjà vu de 1999. O mercado está precificando um futuro onde essas companhias mantêm um monopólio eterno e margens infinitos.

E essa é uma fantasia perigosa.

A tese alcista de Wall Street se baseia em uma premissa: "Ninguém pode alcançar a NVIDIA. Seu hardware é inalcançável". Mas se olharmos para o leste, cruzando o Pacífico, veremos que essa vantagem competitiva não é tecnológica, mas legislativa. A única razão pela qual a NVIDIA continua reinando sem oposição é o muro artificial de sanções que o governo dos Estados Unidos levantou. Mas como nos ensina a história, os muros não detêm a inovação; apenas a desviam e, frequentemente, a aceleram.

O efeito "Projeto Manhattan" chinês

Em 2022, quando Washington proibiu a venda dos chips H100 e A100 para a China, a intenção era estrangular o desenvolvimento de IA do gigante asiático. O resultado foi exatamente o oposto: provocaram um "Projeto Manhattan" de semicondutores. Ao fechar a porta para a NVIDIA, obrigaram a China a construir sua própria casa. E vão que a construíram rápido.

Os dados técnicos são contundentes e desmentem a narrativa de que a China está "anos atrás":

  • A Huawei voltou: Seu novo chip Ascend 910C (previsto para produção em massa este 2025) já não é um brinquedo. Consegue um desempenho comparável ao da NVIDIA H100 graças a uma arquitetura engenhosa de chiplets e clusters massivos. A Huawei já demonstrou clusters Atlas capazes de treinar modelos gigantescos, e gigantes como iFlytek e Baidu já estão migrando.
  • Soberania de Hardware: Empresas como a MetaX (fundada por ex-engenheiros da AMD) lançaram a GPU C600, com 144 GB de memória HBM3e — uma cifra que rivaliza e até supera em capacidade de memória a própria H200 da NVIDIA. E o mais alarmante para o Vale do Silício: afirmam que é de produção 100% doméstica.
  • O fim da dependência de CUDA: O grande "fosso" da NVIDIA sempre foi seu software CUDA. Mas a necessidade é a mãe da invenção. A China criou uma aliança massiva onde a Huawei (CANN), a Cambricon (NeuWare) e a Moore Threads (MUSA) estão construindo um ecossistema unificado. A MetaX até conseguiu que seus chips sejam compatíveis com CUDA, permitindo que os desenvolvedores migrem seu código quase sem dor.

A fragilidade do gigante americano

A NVIDIA é a rainha hoje, sem dúvida. Mas sua coroa se sustenta sobre bloqueios comerciais, não sobre uma superioridade técnica insuperável a longo prazo.

Os analistas celebram que a NVIDIA venda chips "recortados" (como o H20) para a China, mas ignoram que a quota de mercado da NVIDIA nesse país passou de 95% para cerca de 50% em 2025. Esse outro 50% não se evaporou; foi capturado pela Huawei, Alibaba e Cambricon.

Estamos vendo o nascimento de um ecossistema paralelo. Enquanto as empresas americanas dependem de cadeias de suprimento globais vulneráveis, a China está alcançando a suficiência em toda a pilha: desde o design (Biren, MetaX) até a fabricação (SMIC) e o deploy em nuvem (Alibaba Cloud, Baidu).

A bolha insustentável

Aqui é onde entra a bolha. As valorações atuais das empresas de hardware de IA assumem que continuarão vendendo pás a preço de ouro por sempre. Não descontam o cenário — já visível — onde a AMD (que também vem forte) e os fabricantes chineses inundam o mercado com opções "suficientemente boas" a uma fração do custo.

Se a única salvação para as empresas americanas são os bloqueios da Casa Branca, então elas não têm um negócio sólido; têm um protetorado político. E os protetorados não duram para sempre.

O mercado chinês de IA já demonstrou que pode viver sem a NVIDIA. O que acontecerá quando esses chips chineses, hoje confinados ao mercado local por necessidade, começarem a olhar para mercados emergentes na Ásia, África ou América Latina?

A IA não é uma bolha, mas a crença de que uma única empresa americana será dona da inteligência mundial sim é. Os investidores deveriam olhar menos para os gráficos de ações e mais para as folhas de especificações que estão saindo de Shenzhen e Xangai. O monopólio está se rompendo, e o ruído da explosão da bolha pode ser ensurdecedor.

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